terça-feira, 8 de março de 2011

Adeus!


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, 
e o que nos ficou não chega 
para afastar o frio de quatro paredes. 
Gastámos tudo menos o silêncio. 
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, 
gastámos as mãos à força de as apertarmos, 
gastámos o relógio e as pedras das esquinas 
em esperas inúteis. 

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada. 
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro; 
era como se todas as coisas fossem minhas: 
quanto mais te dava mais tinha para te dar. 

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes. 
E eu acreditava. 
Acreditava, 
porque ao teu lado 
todas as coisas eram possíveis. 

Mas isso era no tempo dos segredos, 
era no tempo em que o teu corpo era um aquário, 
era no tempo em que os meus olhos 
eram realmente peixes verdes. 
Hoje são apenas os meus olhos. 
É pouco, mas é verdade, 
uns olhos como todos os outros. 

Já gastámos as palavras. 
Quando agora digo: meu amor
já se não passa absolutamente nada. 
E no entanto, antes das palavras gastas, 
tenho a certeza 
que todas as coisas estremeciam 
só de murmurar o teu nome 
no silêncio do meu coração. 

Não temos já nada para dar. 
Dentro de ti 
não há nada que me peça água. 
O passado é inútil como um trapo. 
E já te disse: as palavras estão gastas. 

Adeus. 

Eugénio de Andrade, in “Poesia e Prosa” 

7 comentários:

Eclipse d'A Lua disse...

Adoro este poema. Eugénio de Andrade é fantástico.

Me,myself & I! disse...

Também gosto muito...
:)

Bomboca do Amor disse...

Um poema simplesmente magnífico!
Beijinhos,
Bomboca do Amor.

An@ disse...

Lindo!

Nada mais a dizer!

Beijokas

Luís disse...

Um grande poema de um grande poeta.
Blog muito fixe.
Bjs e continua assim! :D

Observador disse...

Interessante.
No mínimo.

:D

mfc disse...

Ele sabia tão bem como dizer as coisas fáceis e difíceis!